- S e l v a d e P e d r a '



 {           Céu azul e frio. Frio. O dia amanheceu tão ensolarado, quanto gelado. Meu tempo favorito. Abri o vidro, encostei a cabeça na moldura da janela e fiquei escorada no peitoril. São Paulo não para. Será que mais alguém repara? Porque eu acho que quase todo mundo sabe que já é Primavera, mas que ninguém viu as florzinhas nascidas no canteiro do Vale. Nem as florzinhas, nem as pessoas que estão por perto, nem nada.
Ao invés de café, pedi um saquê de morango e kiwi. Pastel para acompanhar. Sei que não combina, mas acordei com vontade das duas coisas e não vai dar tempo de ir comer/ beber depois, então, achei justo. Lembrei que essa semana minha mãe foi dizer ao meu irmão que a gente tem que comer o que tem vontade, na hora da vontade, porque senão vamos adiando e ficamos sem tempo, dinheiro e vontade, se embananou, e acabou falando que dessa vida a gente só leva o que come. Caí na risada. Nem era efeito do saquê, mas as pessoas das mesas do lado ficaram olhando.

Paulista vive apressado, a maioria não tem tempo de nada além de trabalhar e se intrometer na vida dos outros - eu diria cuidar, se de fato, cuidassem. Muitas pessoas no seu próprio mundo, sem querer interagir com o mundo do outro. Cansativo! Penso que seria legal se as pessoas parassem de olhar pro meu copo e risada e viessem até minha mesa pra me falar caramba, saquê e pastel, ficam bons juntos? Logo cedo? Porque eu diria que sim, mesmo sendo uma mistura lascada, só para elas verem que é bem mais legal fazer uma coisa boba, com vontade, do que ficar olhando de canto, e contaria da teoria da minha mãe para elas entenderem que eu não sou tão maluca - será? - quanto pensam.

Não gosto dessa coisa de viver dentro da bolha, de não conviver com o outrem. Sei que existe gente que se reserva mais, gente que se reserva menos, mas independente disso eu aprendi que temos que ter cuidado para não incomodar o outro, saber respeitar os espaços e sermos gentis, porque no mundo real, não tem a opção de não se relacionar com o alheio. Além do que, nunca ouvi dizer que caiu pedaço de alguém por fazer as coisas do melhor jeito.

São Paulo me preocupa – acontece em qualquer lugar, mas aqui é bem pior. Estamos no final de dois mil e treze, e até agora encontro muita gente que ainda não entendeu que não precisa empurrar para entrar e sair do metrô, que não precisa deixar a pessoa que está em pé no transporte público lotado sofrer para carregar a bolsa/ mochila/ cadernos e as pessoas que estão escoradas nela, sem ter onde segurar. Não precisa de grosseria, nem de falar com as pessoas em tom de CAPS LOCK e/ ou fazer chuva de cuspe.

Muita gente não conseguiu ter a sensibilidade de entender que aquela pessoa de roupa e maquiagem estranha não quer ninguém olhando torto, porque ela está se sentindo linda – seja por querer, precisar ou ser assim – ou está se sentindo horrível, e não quer ficar pior. Não precisa rir de ninguém, mas pode sorrir. Pode pedir desculpa, com licençapor gentileza, e desejar bom dia, boa tarde e boa noite, que a língua não cai. Meninas dizem obrigada, e meninos, obrigado. Também pode guardar o lixinho para jogar na lixeira mais próxima ou em casa mesmo, que a mão também não cai. 

Pode andar olhando pro chão para não tropeçar, mas também pode olhar para as pessoas. Se encontrar alguém chorando, pode oferecer um lencinho, se você tiver, que a pessoa não vai pensar que é droga e recusar. Pode falar de outros assuntos sem ser mal da vida dos outros, trabalho e dinheiro - e por falar em dinheiro, se tiver com ele na mão ou conta bancária, não precisa deixar as contas para pagar no ultimo dia do vencimento, que o Banco vai estar lotado e a Internet tende a perder o sinal justo nesse dia. Pode participar de rede social, ter Iphone, Ipad, Ipod e Android, mas tenha educação, empatia e sensibilidade, que dá para conciliar.

Longe de mim ser uma pessoa hipócrita, também tenho defeitos e consciência de que ninguém resolve o mundo sozinho. Trabalho em mim para minimizá-los e acredito que se cada um fizer a sua parte, ajuda a melhorar ou simplesmente contribui para não piorar. Faço o que posso, ajudo quem posso, ensino e aprendo. Mas confesso meu cansaço por ver tanto egoísmo e ignorância sem a mínima intenção de mudar, que me dá vontade de me mudar.

Talvez eu tenha tanta paixão por janelas, porque através delas é que eu vejo tanta coisa e tantas pessoas, com maior nitidez. Até eu mesma, no reflexo do vidro. Janelas são portas. Criolo estava enganado, existe amor SP – e eu sou a prova viva. Só que acabou o tesão.  Cabô o tesão, entende? Então, às vezes, tudo que eu desejo é uma janela, uma boa dose de risadas, livros e céu azul. Quem sabe assim, as pessoas não deixem de ver as flores nos canteiros e as sementes nas pessoas, porque cada dia que passa, é um a menos. Cada semente que a gente planta, é um fruto a mais que a gente colhe - e infelizmente tem muita gente colhendo também o que não plantou, porque cresceu junto, e tendo um trabalho absurdo para identificar, separar, preparar e modificar.  


É Primavera, vale a pena deixar florescer as melhores sementes que temos em nós.          }


Priscila Izzo.

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