- M u d a n ç a '

{            Paulo estava me contando que está mudando de apartamento, mas não de prédio; e que apesar de continuar no mesmo andar, sua mudança já dura alguns dias. Tem organizado suas coisas á seu gosto, aprendido fazer o que não havia feito antes, e gasto a maior parte do seu tempo livre, cuidando do seu espaço.
            Contou que, dia desses, foi comprar uns materiais para fazer um serviço no apartamento e acabou esquecendo o material principal para iniciar, e quando percebeu a loja já havia fechado. Achei engraçado. Até porque, estou vivendo uma fase um pouco semelhante a que ele está passando.

            Já faz algum tempo que estou me mudando de casa, não para outro lugar, mas para dentro de mim mesma. Tenho me organizado, deixando apenas as coisas que são realmente importantes e gosto. Gastado meu tempo aprendendo o novo, e desaprendendo algumas coisas, para aprender outra vez, de outra forma; cuidando de mim.
            Acontece que, dia desses, eu precisava lidar com uma situação inesperada e imprevista, processei todas as informações, analisei todas as hipóteses, e me esqueci de ouvir o que meu coração precisava dizer. Quando percebi, já tinha tomado um caminho. Achei engraçado. Passei dias e horas repensando sobre o que havia falhado, e só percebi no momento da conversa.

            Desligamos o telefone. Com a cabeça apoiada no travesseiro, fiquei olhando os materiais, folhas e livros na prateleira do quarto. Mais uma vez, a vida me ensinando a repassar os detalhes que passam despercebidos. Quantas coisas, que eu já não quero mais, já não me pertencem, nunca me pertenceram. Quanta coisa sobrando de um lado da história e faltando do outro. Quanta coisa esquecida e guardada naquela prateleira, que já não faz parte da minha história, ou nunca fez.
            Revi os cadernos, organizei as pastas, juntei os livros. Ainda ficaram algumas caixinhas que precisam ser mexidas até o final da mudança. Fiquei pensando que o Paulo não faz ideia de que seu novo apartamento me fez parar para rever os meus departamentos. Que eu não tinha ideia que a minha casa, que não é a maior e nem a melhor, é tão parecida comigo por ser tão simples e com grandes janelas.

            Certamente eu trocaria toda aquela prateleira, por uma varanda. Onde moro, não tem varanda. Mas eu senti falta de uma em que eu pudesse ter apenas uma rede e um bom livro. Estou mudando de casa. Repensando atitudes, palavras, momentos, pessoas, músicas, gestos, aspirações. Reorganizando, aprendendo. Buscando acertar os caminhos, sem apagar as luzes que me iluminam. Estou trocando a prateleira pela leveza do balanço de uma rede e apenas um livro que caiba dentro da rotina do meu coração, sem exceder ou faltar. Reescrevendo as minhas histórias da melhor forma que eu puder ser e com as melhores cores que eu puder ter. Na minha nova casa, vai ter varanda.                                                              }


 O avesso às vezes dá certo. Veja só o lusco-fusco e eu reparo, é o fim do mundo
e o que eu sei é que eu não sinto mais medo 


Priscila Izzo.

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