- F l o r z i n h a '

{           Quem me conhece sabe sem eu precisar dizer que, com exceção dos meus esmaltes e das raras vezes que recorro aos batons cereja e laranja, que as minhas maiores vaidades não tem cor. Banho, sabonete, hidratante, shampoo, condicionador, colônia, perfume, lenço umedecido. Depilação rigorosamente em dia. Salto alto e estilo um tanto retrô. Quase uma lady.
            Quase. Minha pele sensível e cabelos finos alourados somados a minha educação tendem a enganar bem. No entanto, todo conto de fadas se moderniza quando falo de boca cheia, não penteio o cabelo, perco as papas da língua, solto um palavrão ou outro, faço mil coisas ao mesmo tempo, e não tenho neura com corpo.
            Dormir virou luxo. Já nem lembro qual foi a ultima noite que consegui ter mais de três horas de sono nesses últimos anos... Acredito que dormir tira tempo da vida. Desde a infância venho precisando de, no mínimo, trinta e duas horas diárias para fazer tudo preciso e quero – fora às coisas que eu arrumo para preencher os minutos que sobram. Ganhei suaves olheiras.
           Não tenho tempo de ser dondoca. Dou um duro danado na vida e às vezes ela é que me deixa dura... O coração é sempre mole demais. Trabalho, cuido da casa, do marido, estudo, vou a igreja, leio, me divirto, me distraio, cumpro meus compromissos, ajudo, erro, acerto, aprendo. Aprendo. Além de ser filha, namorada, amiga, colega e voluntária ao mesmo tempo em que sou eu mesma em período integral - o que já me dá muito trabalho.
            Vida de Miss passa longe da minha realidade - há controvérsias, eu sei. Passa longe do meu jeitinho estabanado, que tropeça na delicadeza, de salto alto e quebra copos, cai na rua, tromba nos móveis, e engasga momentos de seriedade com ataques de riso, piadas contadas nas horas erradas, comentários franco-deselegantes. Desmorona qualquer sensualidade... com uma pitada de superstição e TOC.
Paciência a meu ver é quase um superpoder do qual não fui agraciada, embora tolerância eu tenha. Sou verdadeira nas minhas relações, e por isso costumo não me importar com que algumas pessoas pensam a certos respeitos: não tenho vocação teatral. Falo ao menos uma vez na vida e deixo o outrem perceber meus afetos que são invariavelmente sinceros; e destino meu silencio a aqueles que não gosto ou ainda não ganharam espaço suficiente dentro de mim.
Leonina por sorte, de quem era pra ter sidoescorpiana, sou resumo de tudo que deu um tanto errado na vida, feita de vaidade descolorada e emoções florescentes. Ajudo, cuido, confio. Tem outro jeito? Respiro fundo, reconheço erros, choro... Se tem uma coisa que eu nunca senti vergonha, é de chorar quando as lágrimas fazem tempestade. Lá se vai maquiagem, postura, e fica nariz vermelho, bico, transparência. Tento melhorar – a minha, a sua e a vida de todo mundo que a gente ama.

      Mas eu juro que sou quase uma lady. Hoje. Para depois, eu só quero ser uma quarentona bonita, realizada, cheia de novos sonhos e projetos, que continua cuidando da própria vida e tentando ser um porquinho melhor, cada dia mais. Ainda que às vezes eu pareça porcelana envernizada com frescura, sou de carne, osso e ansiedade pura, de ponta cabeça e virada do avesso.
        De lady, quase nada tenho. E pra ser sincera, sou quase uma florzinha (carnívora) simples, bonitinha e delicada, que não morde (ninguém que não esteja procurando ser mordido). E se um dia belisquei as pétalas de alguém que não merecia, não fiz por querer. Não sei brincar de bem ou mal me quer. Bem quero todas as pessoas e coisas que mantenho no coração, e agride brutalmente a minha existência machucar o outrem.            }

Priscila Izzo
{ Escrito originalmente em 29. Abr. 2014 e repostado.}

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